Camaragibe: Onde a leitura encontra a memória da comunidade
Em Camaragibe, a Caixa de Histórias permanece viva no Centro Comunitário Vivendo e Aprendendo, entre livros, escutas e narrativas que ajudam a comunidade a reconhecer a própria história
Há histórias que chegam pelos livros. Outras que já estão ali, guardadas no modo como uma comunidade é capaz de lembrar de si mesma, nas conversas entre vizinhos, nas experiências das mulheres, nas brincadeiras das crianças, nas memórias que passam de boca em boca antes mesmo de virarem texto.
Em Camaragibe, a Caixa de Histórias encontrou esse lugar de encontro entre leitura e memória. No Centro Comunitário Vivendo e Aprendendo, espaço que desenvolve ações voltadas à leitura, à memória comunitária e ao fortalecimento cultural local, o projeto Ler pra Ser segue presente como uma pequena biblioteca afetiva, mas também como um dispositivo de escuta do território. O relatório da revisita identificou que a Caixa permanece em boas condições de conservação e organização, com manutenção frequente do mobiliário e do acervo, além de circulação contínua das obras por meio de empréstimos e consultas locais.
Camaragibe é um município da Região Metropolitana do Recife com população registrada de 147.771 pessoas (segundo o Censo 2022) e estimativa de 156.112 habitantes em 2025, segundo o IBGE. A cidade tem alta densidade demográfica, com 2.879,35 habitantes por km², e taxa de escolarização de 96,76% entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos.

Em um território urbano, populoso e atravessado por desigualdades comuns às cidades metropolitanas brasileiras, iniciativas de leitura em espaços comunitários ganham uma função que vai além do acesso ao livro: elas criam lugares de permanência, convivência e reconhecimento.
A Caixa de Histórias em Camaragibe reúne aproximadamente 60 livros. Segundo a tabulação da pesquisa realizada no retorno do projeto, o acervo registra média de 10 empréstimos por mês e também é utilizado para consulta local. A mediação de leitura e a contação de histórias aparecem como práticas frequentes, envolvendo moradores, grupos locais e a comunidade em geral.
Mas talvez o dado mais importante de Camaragibe não esteja apenas na quantidade de livros. Está na forma como o acervo foi percebido. A justificativa registrada na pesquisa aponta a valorização da Caixa por trazer, além dos livros, o registro da própria história da comunidade. Entre os materiais com maior identificação aparece o livro produzido pelo projeto Histórias do Meu Povo – Camaragibe, experiência anterior da Liga Criativa que precedeu o Ler pra Ser e já trabalhava justamente a memória local como matéria-prima de leitura, criação e pertencimento.
É aí que Camaragibe oferece uma chave importante para entender a permanência do Ler pra Ser. Quando uma comunidade se reconhece em uma história, o livro deixa de ser apenas objeto externo. Ele passa a fazer parte de uma conversa mais antiga. Passa a organizar lembranças, provocar perguntas, guardar nomes, cenas, personagens e modos de existir que nem sempre aparecem nos livros que chegam prontos às bibliotecas.



No Centro Comunitário Vivendo e Aprendendo, a Caixa de Histórias se articula com associações locais, escolas, empresas parceiras e moradores da comunidade. O levantamento identificou parcerias com o Conselho Social Bondade de Deus 2, a Associação das Mulheres do Santana, a Secretaria de Educação, a Liga Criativa, a BBG Comunicação, o programa Penas Alternativas e moradores locais. Essa rede é um dos sinais de que o projeto não permanece apenas porque uma caixa foi deixada lá, porque há pessoas e instituições em torno dela, sustentando o gesto de ler, cuidar e compartilhar.
A própria avaliação do impacto indica um aumento significativo no interesse pela leitura. Entre as contribuições percebidas, aparecem vínculo, repertório, envolvimento dos grupos locais de mulheres, escuta sobre as próprias histórias e registro da memória. Em outras palavras, a Caixa não atua apenas como ponto de empréstimo. Ela se torna um centro de circulação simbólica: livros entram, histórias saem, memórias retornam com outra forma.
A cidade também tem uma trajetória institucional ligada à leitura. A Biblioteca Pública Penarol de Camaragibe, situada na Vila da Fábrica, é registrada no Mapa Cultural
de Pernambuco como equipamento voltado ao cultivo do hábito de leitura desde 2011. (Mapa Cultural de Pernambuco) Esse contexto ajuda a mostrar que o Ler pra Ser não chega a um vazio, mas se soma a uma rede já existente de práticas, espaços e agentes que defendem o livro como direito.
Ainda assim, o retorno ao território também revelou desafios. Entre as necessidades apontadas estão a ampliação do alcance da Caixa de Histórias, a mobilidade do acervo, oficinas de contação de histórias para mulheres, equipe especializada e logística de transporte. O desejo de levar a Caixa para ruas e escolas mostra que, em Camaragibe, o próximo passo não é apenas conservar o que já existe, mas fazer o acervo circular mais.
Essa talvez seja uma das imagens mais fortes da cidade: uma Caixa de Histórias que está viva, mas que quer andar. Sair do centro comunitário, chegar a outras ruas, encontrar novas crianças, atravessar escolas, escutar mais mulheres, recolher mais memórias. Porque, quando o livro encontra uma comunidade que já tem tanto a dizer, ele abre caminho para que muitas histórias continuem sendo contadas.





Comentários