A caixa que guarda livros, oralidade e memória quilombola
No Quilombo Chã dos Negros, em Passira, a Caixa de Histórias aproxima leitura, identidade negra e memória local em uma comunidade marcada pela força da tradição oral
Mesmo antes de um livro ser aberto, já tem história que pode estar sendo contada. No Quilombo Chã dos Negros, em Passira, as histórias vivem na oralidade, nos saberes transmitidos entre gerações, na memória das famílias, nas manifestações culturais, nas lembranças do território e nas formas como a comunidade afirma sua presença no mundo. Quando a Caixa de Histórias chegou ali, ela não levou apenas livros. Levou também uma possibilidade de encontro entre a palavra escrita e uma tradição que já existia muito antes das páginas costuradas.
Localizada na zona rural de Passira, a comunidade quilombola Chã dos Negros fica a cerca de 20 km do centro do município, segundo registro da Secretaria de Cultura de Pernambuco. A comunidade é certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, conforme registros reunidos pelo iPatrimônio e pelo Observatório Terras Quilombolas. Passira, município do Agreste pernambucano, tem população de 28.340 pessoas no Censo 2022, estimativa de 29.744 habitantes em 2025 e taxa de escolarização de 98,83% entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos, de acordo com o IBGE.


Esses dados situam o território, mas não explicam sozinhos a densidade simbólica da experiência. Em Chã dos Negros, falar de leitura é também falar de identidade, pertencimento e memória coletiva. O relatório de revisita do Ler pra Ser identificou que a Caixa de Histórias permanece vinculada à Escola Municipal Marina Rodrigues Siqueira, onde está associada às ações de incentivo à leitura e fortalecimento cultural desenvolvidas na comunidade.
O acervo identificado conta com aproximadamente 22 livros, utilizados principalmente em ações presenciais no ambiente escolar. A pesquisa aponta que a Caixa permanece no território como instrumento de aproximação entre literatura, memória e comunidade. Embora esteja em bom estado de conservação, há desafios relacionados à organização e à manutenção contínua. A circulação do acervo, segundo o levantamento, ocorreu no espaço cultural da comunidade por cerca de seis meses.
Na tabulação da pesquisa, a Caixa aparece como importante, mas também como um recurso que ainda
não recebeu toda a atenção que poderia receber. Essa ambiguidade é preciosa porque revela algo muito real sobre projetos culturais em territórios: a potência existe, mas precisa de tempo, acompanhamento, formação e gente responsável para se sustentar.
Em Chã dos Negros, não há registro de empréstimos mensais no levantamento. A consulta local, no entanto, acontece. A mediação de leitura e a contação de histórias são realizadas de forma ocasional, com foco especialmente nas crianças. Entre os efeitos percebidos, o questionário aponta aumento moderado no interesse pela leitura, além de contribuições como repertório, trocas e vínculo.
Mas a principal força da experiência aparece quando a comunidade aponta o que deseja para o futuro da Caixa: uma pessoa responsável e capacitada na área literária, livros sobre identidade negra, oficinas para crianças, jovens e idosos, troca de saberes e ações voltadas à memória. Também foram indicadas formações em contação de histórias do povo, mediação para jovens e escrita criativa para registro da oralidade local.

Essa demanda diz muito. Ela mostra que, no quilombo, o livro não é visto como substituto da oralidade, mas como aliado. A escrita pode ajudar a registrar aquilo que a voz sustenta há gerações. A leitura pode ampliar repertórios sem apagar as narrativas locais. A biblioteca pode ser pequena no número de exemplares, mas imensa naquilo que pode provocar quando encontra uma comunidade que reconhece o valor de contar sua própria história.
Chã dos Negros já carrega uma trajetória cultural reconhecida. Em 2014, a Secretaria de Cultura de Pernambuco registrou que a comunidade havia se tornado Ponto de Cultura a partir do projeto Contos e Danças de Roçado, voltado à preservação da tradição do coco de roda local. Esse dado ajuda a compreender por que a Caixa de Histórias, nesse território, precisa ser lida também como parte de uma rede maior de memória, cultura popular, identidade negra e educação.
Por isso, a permanência do Ler pra Ser em Chã dos Negros não pode ser medida apenas pela quantidade de livros ou pelos empréstimos registrados.


Ela precisa ser compreendida pela possibilidade de transformar a Caixa em uma ponte: entre escola e comunidade, entre crianças e idosos, entre livro e oralidade, entre memória e futuro.
O retorno do projeto ao quilombo revelou necessidades concretas, mas também confirmou uma potência. Há ali uma comunidade que deseja mais visibilidade, mais reconhecimento e mais instrumentos para registrar suas histórias. Há crianças que podem encontrar nos livros novas formas de imaginar o mundo. Há jovens que podem aprender a escrever a memória que receberam. Há pessoas mais velhas que carregam narrativas que não podem se perder.
Em Chã dos Negros, a Caixa de Histórias talvez seja menos uma biblioteca pronta e mais uma promessa de continuidade. Ela guarda livros, mas também aponta para aquilo que ainda precisa ser escrito. E, em um território quilombola, escrever a própria história é mais do que uma prática literária. É um gesto de permanência.




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