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Ler pra Ser volta aos territórios para escutar o que a leitura deixou pelo caminho

9 de set.
6 min de leitura

Atualizado: 10 de set.

Com incentivo do Funcultura/PE, projeto da Liga Criativa revisitou oito cidades pernambucanas para documentar a permanência das Caixas de Histórias, ouvir comunidades e registrar os caminhos abertos pelo acesso ao livro




Dez anos depois de começar a espalhar livros, histórias e encontros por Pernambuco, o projeto Ler pra Ser voltou a alguns dos lugares por onde já passou. Não para repetir o mesmo gesto, nem apenas para celebrar uma trajetória. Voltou para escutar.

Entre bibliotecas públicas, escolas, associações comunitárias, pontos de cultura e territórios quilombolas, a nova etapa do projeto percorreu oito cidades e comunidades pernambucanas para observar o que permaneceu depois da primeira passagem: ver onde estão as Caixas de Histórias, como os livros circulam, quem cuida dos acervos, que práticas de leitura nasceram ou se fortaleceram e que memórias continuam sendo contadas a partir dali.

A iniciativa, realizada pela Liga Criativa, integra uma nova fase de documentação do Ler pra Ser, projeto idealizado por Eliz Galvão e desenvolvido ao longo de uma década com incentivo do Funcultura/PE, que tem foco na democratização do acesso ao livro, na formação de leitores e na valorização das narrativas locais. Nesta etapa, a equipe revisitou os territórios de Camaragibe, Caruaru, Limoeiro, Nazaré da Mata, Palmares, Joaquim Nabuco, Vicência e Quilombo Chã dos Negros, em Passira, reunindo relatos, registros em áudio, vídeo, texto e dados sobre a presença das Caixas de Histórias em cada local.

Equipe do Ler pra Ser em visita as instituições parceiras. PE, 2026
Equipe do Ler pra Ser em visita as instituições parceiras. PE, 2026
Contação de histórias com o arte-educador Guga Bezerra.
Contação de histórias com o arte-educador Guga Bezerra.

O retorno acontece em um momento em que falar de leitura no Brasil exige olhar para além da ideia abstrata de “hábito”. A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024, mostra que menos da metade da população brasileira com 5 anos ou mais é considerada leitora. O percentual caiu de 52%, em 2019, para 47%, em 2024. Em Pernambuco, esse índice é de 46%.

Os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio, mas não contam tudo. Ler ou não ler, no Brasil, quase nunca é apenas uma escolha individual. É também uma consequência direta do acesso ao livro, da presença de bibliotecas, da mediação de leitura, da escola, da renda, da localização geográfica, do tempo

disponível e da existência de alguém ou algum espaço que convide a criança, o jovem ou o adulto a entrar no mundo da palavra escrita.

Segundo o IBGE, a taxa de alfabetização no Brasil chegou a 93% em 2022 entre pessoas de 15 anos ou mais. Mas as desigualdades permanecem profundas. O Nordeste ainda apresenta a menor taxa de alfabetização entre as regiões brasileiras e uma taxa de analfabetismo de 14,2%, o dobro da média nacional. É nesse contexto que projetos de incentivo à leitura em territórios do interior, periferias, comunidades rurais e quilombolas ganham uma dimensão que vai além da entrega de livros. Eles criam presença, vínculo e possibilidade.


O que acontece quando o livro chega onde antes ele praticamente não chegava?
Caixas de Histórias do projeto Ler pra Ser.
Caixas de Histórias do projeto Ler pra Ser.

No caso do Ler pra Ser, essa presença se materializa nas já mencionadas Caixas de Histórias. Cada caixa funciona como um pequeno acervo em circulação, mas também como ponto de encontro. Em alguns lugares, ela está integrada a bibliotecas. Em outros, permanece em escolas, associações, centros culturais ou espaços comunitários.

Em todos, carrega uma provocação essencial: o que acontece quando o livro chega onde antes ele praticamente não chegava?

O levantamento realizado nesta etapa combinou questionários, observação dos espaços e escuta dos responsáveis por essas caixas. Os dados da tabulação mostram que, nos oito territórios visitados, foram identificados pelo menos 356 livros vinculados aos acervos das Caixas de Histórias do Ler pra Ser (ou Histórias do Meu Povo, que foi o primeiro nome do projeto). Camaragibe aparece com cerca de 60 livros; Joaquim Nabuco, 50; Limoeiro, 49; Caruaru, 48; Palmares, 47; Nazaré da Mata e Vicência, 40 cada; e o Quilombo Chã dos Negros, 22. Em alguns espaços, os empréstimos ainda são baixos ou inexistentes. Em outros, como Nazaré da Mata, a circulação é intensa, chegando a uma média de 50 empréstimos por mês.

Mas o impacto do projeto aparece também em dados que não cabem apenas em números. Em Camaragibe,

a Caixa de Histórias foi associada à valorização da memória da própria comunidade. Em Limoeiro, a experiência impulsionou projetos como o “Ler e Brincar”, a “Mostra de Contação de Histórias” e a “Kombi Brincalhona”. Em Palmares, a Caixa foi descrita como uma “biblioteca em movimento”. No Quilombo Chã dos Negros, apareceu ligada ao fortalecimento da identidade quilombola, da oralidade e das memórias locais.

A recorrência de práticas como mediação de leitura e contação de histórias também indica que a Caixa não atua sozinha. O livro precisa de alguém que abra, leia, convide, escute, empreste, organize, cuide. Por isso, uma das principais demandas apontadas pelos territórios foi a necessidade de formação continuada em mediação de leitura, contação de histórias, escrita criativa, práticas literárias e ampliação de acervo.

Entrevistas nos territórios.
Entrevistas nos territórios.

“Voltar aos territórios foi uma forma de compreender o que permaneceu depois da passagem do projeto. O Ler pra Ser nunca foi apenas sobre entregar livros. Sempre foi sobre criar vínculos, fortalecer redes e afirmar a leitura como um direito que precisa chegar onde as pessoas estão.” afirma Eliz Galvão, idealizadora do projeto e da Liga Criativa.


É nesse ponto que o retorno do Ler pra Ser ganha sentido de documentação, mas também de futuro. Revisitar os territórios permitiu reconhecer o que germinou, o que resistiu, o que mudou de lugar, o que precisa de reparo, o que pede continuidade. Em vez de tratar a ação cultural como evento passageiro, o projeto volta para perguntar o que ficou depois da oficina, depois da entrega, depois da fotografia oficial.

“Voltar aos territórios foi uma forma de compreender o que permaneceu depois da passagem do projeto. O Ler pra Ser nunca foi apenas sobre entregar livros. Sempre foi sobre criar vínculos, fortalecer redes e afirmar a leitura como um direito que precisa chegar onde as pessoas estão”, afirma Eliz Galvão, idealizadora do projeto e da Liga Criativa.

Para o jornalista e arte-educador Guga Bezerra, o Ler pra Ser é mais que um projeto, é um verdadeiro propósito. “Em cada Caixa de Histórias existe mais do que um acervo. Existe a tentativa bonita de lembrar que toda pessoa merece ser ouvida, acolhida e atravessada pela arte. Porque, quando a leitura encontra o povo, ela deixa de ser apenas leitura — ela vira memória, cuidado, resistência e esperança. Talvez seja isso que faz tudo ganhar sentido: entender que cada história compartilhada também ajuda alguém a perceber que sua própria existência importa", explicou.

Ao transformar esse retorno em uma série de reportagens, a Liga Criativa também cria um gesto de memória pública. Cada cidade terá sua própria página aqui no site, com dados sobre o município, informações sobre o acervo, registros da Caixa de Histórias, relatos dos responsáveis e um retrato do contexto local de leitura. A proposta é que o site funcione como arquivo vivo do Ler pra Ser: um lugar onde seja possível acompanhar não apenas onde o projeto esteve, mas como cada território apropriou-se dele.


Porque uma política de leitura não se mede apenas pelo número de livros entregues. Mede-se também pelo caminho que eles fazem depois. Pelo menino que descobre uma história. Pela mulher que passa a contar para outras mulheres. Pela biblioteca que sai da sala e vai para a praça. Pelo quilombo que reconhece sua memória como narrativa. Pelo ponto de cultura que transforma o acervo em projeto. Pela cidade que encontra, dentro de uma caixa, uma forma de continuar lendo a si mesma.

Arte-educador Guga Bezerra e Eliz Galvão em visita.
Arte-educador Guga Bezerra e Eliz Galvão em visita.

Veja o relato de Guga Bezerra, arte-educador do Ler pra Ser, sobre o que significou esse retorno do projeto aos locais percorridos na primeira fase:

“Em cada território visitado, tornava-se evidente que o projeto Ler Pra Ser encontrou sentido dentro das comunidades, reafirmando a importância da leitura e da arte literária como direitos que devem estar ao alcance de todos, sem exceção. A presença da Caixa de Histórias parecia abrir caminhos para novas formas de encontro entre as pessoas, os livros e os próprios territórios. Em muitos lugares, foi possível perceber que a chegada do projeto impulsionou ações voltadas à formação de leitores, fortalecendo práticas de mediação, circulação do acervo e experiências coletivas em torno da literatura. Mais do que a intenção de despertar o gosto de ler, a Caixa de Histórias passou a ocupar um lugar simbólico dentro das comunidades, contribuindo para ampliar imaginários, criar vínculos afetivos e aproximar diferentes gerações por meio das histórias compartilhadas.

Ao percorrer os territórios, ficava a sensação de que cada ação nascida a partir da presença da Caixa carregava também um gesto de resistência cultural e de permanência da literatura como experiência viva, coletiva e transformadora".


Mapa do retorno: Camaragibe, Caruaru, Limoeiro, Nazaré da Mata, Palmares, Joaquim Nabuco, Vicência e Passira (Quilombo Chã dos Negros).
Mapa do retorno: Camaragibe, Caruaru, Limoeiro, Nazaré da Mata, Palmares, Joaquim Nabuco, Vicência e Passira (Quilombo Chã dos Negros).
Números gerais da revisita do Ler pra Ser.
Números gerais da revisita do Ler pra Ser.



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