Quando a leitura encontra o povo, ela cria raízes
Atualizado: 30 de set.
Um relato de Guga Bezerra, arte-educador do Ler Pra Ser, sobre as visitas aos territórios e as experiências vividas nas oficinas do projeto

Nos territórios, a literatura como presença
Durante as visitas aos territórios participantes do projeto Ler Pra Ser – Caixa de Histórias, fui percebendo que os livros ocupavam lugares muito mais que as próprias caixas que os guardavam. Em cada espaço visitado, a literatura parecia existir como presença viva, atravessando pessoas, despertando memórias e criando formas de encontro que, muitas vezes, iam além da própria leitura.
Houve momentos em que a literatura ultrapassou o espaço da palavra escrita e passou a ocupar também o lugar do acolhimento. Em muitas rodas de conversa realizadas com crianças e jovens que tiveram contato com o acervo diversificado e representativo da Caixa de Histórias, os livros tornaram-se instrumentos de escuta, cuidado e partilha. Aos poucos, aquele espaço construído em torno das narrativas transformava-se em território seguro para trocas profundamente pessoais e humanas, revelando que ler também é uma forma de ouvir o outro e a si mesmo.
As histórias despertavam memórias, atravessavam silêncios e permitiam que sentimentos encontrassem linguagem. Entre os adultos, a literatura fez florescer lembranças afetivas, reencontrando histórias guardadas no tempo, memórias de infância, experiências de vida e afetos construídos através das palavras. Já entre os idosos, os encontros abriram caminhos para a partilha de trajetórias e narrativas pessoais que, ao serem contadas, também passavam a habitar coletivamente aquele território de escuta e convivência.


Em cada roda, a literatura surgia como ponte entre gerações, criando possibilidades de fala, identificação e pertencimento. Talvez porque algumas histórias tenham justamente essa força: a de tocar lugares que, muitas vezes, as palavras cotidianas não conseguem alcançar.
Durante o percurso, tornou-se evidente que toda intenção, movimento ou planejamento de ação dentro do projeto Ler Pra Ser nasce do desejo de fazer a leitura florescer como rio dentro dos territórios — um rio que atravessa vidas, irriga imaginários, carrega memórias e segue abrindo caminhos por onde passa. Porque, quando a literatura encontra espaço para existir coletivamente, ela deixa de ser apenas palavra escrita e passa a se transformar em presença, afeto e permanência.
Em cada território visitado, fui percebendo como o projeto fazia sentido dentro das comunidades, reafirmando a leitura e a arte literária como direitos que devem estar ao alcance de todos, sem exceção. Em muitos espaços, a chegada da Caixa de Histórias parecia acender movimentos de formação leitora, mediação cultural e circulação de afetos, como se os livros
ajudassem a abrir pequenas frestas de futuro dentro do cotidiano. O que permanece em mim, ao final de cada encontro, é o desejo de que a Caixa de Histórias continue sendo esse caminho de travessia entre pessoas, leituras, escutas e afetos. Que ela siga criando espaços onde cada pessoa possa se reconhecer dentro das histórias, perceber que sua trajetória também merece ser contada e compreender que seus sonhos não pertencem a um lugar distante ou impossível.
Mais do que fazer os livros circularem, a Caixa de Histórias parece carregar a possibilidade de despertar presenças. De permitir que crianças, jovens, adultos e idosos enxerguem a si mesmos como sujeitos de suas próprias narrativas, entendendo que podem ser aquilo que desejarem ser e que existe beleza, potência e permanência em suas vozes, memórias e existências.
Talvez seja essa uma das maiores forças da literatura: lembrar às pessoas que elas também cabem nas histórias. E que, quando a leitura encontra o povo, ela cria raízes — raízes profundas, feitas de memória, afeto, resistência e esperança.

Nas oficinas, a palavra como encontro
Durante as oficinas realizadas pelo projeto Ler Pra Ser, pensou-se em aproximar cada participante da arte da palavra, dos saberes e das encantarias presentes nas narrativas. Fossem contos, crônicas, músicas ou poesias, cada experiência buscava despertar o encantamento pela leitura e fortalecer a partilha das histórias entre as pessoas.
Mais do que apresentar livros, as oficinas procuravam criar espaços de escuta, imaginação e sensibilidade, permitindo que cada participante experimentasse os caminhos que a literatura pode abrir dentro de si e no encontro com o outro. Em cada leitura compartilhada, em cada história contada ou ouvida, surgia também a possibilidade de reconhecer a palavra como abrigo, memória e forma de existência coletiva.
Ao longo das vivências, tornava-se evidente que o contato com a literatura despertava não apenas o gosto pela leitura, mas também o desejo de continuar fazendo as histórias circularem. Porque, depois de experimentar os afetos e transformações que a leitura pode provocar, muitos participantes passaram a compreender o ato de ler, ouvir ou contar histórias como gesto de partilha, cuidado e permanência.

Guga Bezerra, Arte-educador do projeto Ler Pra Ser




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