Uma caixa que encontrou novos caminhos na terra do forró
Atualizado: 24 de set.
Em Caruaru, a Caixa de Histórias saiu do Alto do Moura e hoje está vinculada ao Boi Tira-Teima, revelando os caminhos possíveis entre literatura, cultura popular e memória comunitária
Caruaru é uma cidade acostumada a transformar matéria em narrativa. No barro do Alto do Moura, nas feiras, nos mestres, nos bois, nas danças e nos modos de fazer que atravessam gerações, a cidade aprendeu a contar sua própria história com as mãos, com o corpo e com a festa. Foi nesse território de forte identidade cultural que a Caixa de Histórias do Ler pra Ser chegou inicialmente, sendo deixada no Alto do Moura, em um espaço cultural parceiro do projeto.
Anos depois, durante a revisita realizada pela Liga Criativa, a Caixa foi encontrada em outro endereço. O acervo havia sido transferido para a sede do Boi Tira-Teima, no bairro das Rendeiras, distante do Alto do Moura, mas ainda dentro de uma rede viva de cultura popular. A mudança de lugar não apaga a passagem inicial. Pelo contrário: revela uma das questões mais importantes desta etapa de documentação do Ler pra Ser: acompanhar os caminhos que os livros fizeram depois da chegada do projeto.


Caruaru tinha 378.048 habitantes no Censo 2022, população estimada em 405.408 pessoas em 2025 e taxa de escolarização de 97,41% entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos, segundo o IBGE. O município também abriga o Alto do Moura, um dos territórios culturais mais simbólicos de Pernambuco, reconhecido pela força do artesanato em barro e pela herança de mestres como Vitalino. Na relação do Ministério da Cultura para o PNLD em Pernambuco, Caruaru aparece com biblioteca comunitária no Alto do Moura e bibliotecas públicas municipais como Aleixo Leite Filho e Álvaro Lins.
Esse deslocamento ajuda a entender por que a presença da Caixa de Histórias em Caruaru não deve ser lida apenas como permanência física em um único lugar. Ela também revela como os acervos comunitários dependem de redes, guardiões e espaços capazes de
assumir o cuidado com os livros ao longo do tempo. Na revisita, a Caixa de Histórias foi localizada no Ponto de Cultura Boi Tira-Teima, onde segue integrada a uma biblioteca comunitária e acessível à comunidade. O relatório de revisita aponta que a Caixa permanece em funcionamento, ainda que em espaço diferente daquele originalmente destinado à sua circulação, mantendo o acervo disponível e fortalecendo práticas de leitura no território.
A tabulação registra aproximadamente 48 livros, consulta local e manutenção frequente do mobiliário. Não há registro de empréstimos mensais, e as atividades de contação de histórias aparecem como ocasionais. Ainda assim, o acervo segue disponível e articulado ao cotidiano cultural do Boi Tira-Teima, espaço que já opera com a lógica da memória, da tradição e da transmissão de saberes.

Em Caruaru, a força da Caixa talvez esteja menos nos números de circulação e mais no encontro possível entre linguagens. A literatura pode dialogar com a cultura popular, com o cordel, com a oralidade, com a escrita criativa, com estudantes de Pedagogia voluntários, com grupos como Flor do Barro e Cabras de Lampião, citados na tabulação como articulações culturais.
As necessidades apontadas pelo território indicam caminhos muito coerentes com a cidade: oficina de cordel e escrita criativa, oficina de contação de histórias e oficina de práticas leitoras. É quase como se a Caixa pedisse para ser ativada a partir da própria vocação de Caruaru: contar, modelar, performar, rimar, transformar experiência em linguagem.
“Caruaru é uma cidade que já conta histórias pelo barro, pela feira, pelo boi, pelo cordel e pela cultura popular. A Caixa de Histórias chega para dialogar com essas linguagens, não para substituir nenhuma delas”, afirma Eliz Galvão.
O relatório também registra que a comunidade reconhece a importância da Caixa como ferramenta de acesso ao livro, fortalecimento cultural e aproximação com a literatura. As respostas qualitativas destacam a relevância das mediações culturais, o sentimento de pertencimento construído em torno da leitura e a necessidade de continuidade das ações desenvolvidas.
“Durante as oficinas, a ideia era aproximar cada participante da arte da palavra, dos saberes e das encantarias presentes nas narrativas. Fossem contos, crônicas, músicas ou poesias, cada experiência buscava despertar o encantamento pela leitura”, observa Guga.
Caruaru, portanto, mostra um desafio comum a muitos territórios culturais: o acervo está lá, o espaço é potente, a cidade tem repertório, mas a Caixa precisa de ativação contínua para se tornar mais visível, mais utilizada e mais integrada à rotina da comunidade.
A literatura, nesse caso, não chega para substituir as formas tradicionais de contar. Chega para conversar com elas. Para encontrar o cordel, a brincadeira, o boi, a cerâmica, o forró, o gesto, a roda. Para lembrar que livro também pode ser cultura popular quando encontra o povo, quando se deixa atravessar pelo território e quando passa a fazer parte das formas locais de imaginar e narrar o mundo.
Em Caruaru, a Caixa de Histórias permanece como acervo, mas também como convite. Um convite para que o livro entre na roda e conte junto.







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