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Uma caixa que encontrou novos caminhos na terra do forró

18 de set.
4 min de leitura

Atualizado: 24 de set.

Em Caruaru, a Caixa de Histórias saiu do Alto do Moura e hoje está vinculada ao Boi Tira-Teima, revelando os caminhos possíveis entre literatura, cultura popular e memória comunitária




Caruaru é uma cidade acostumada a transformar matéria em narrativa. No barro do Alto do Moura, nas feiras, nos mestres, nos bois, nas danças e nos modos de fazer que atravessam gerações, a cidade aprendeu a contar sua própria história com as mãos, com o corpo e com a festa. Foi nesse território de forte identidade cultural que a Caixa de Histórias do Ler pra Ser chegou inicialmente, sendo deixada no Alto do Moura, em um espaço cultural parceiro do projeto.

Anos depois, durante a revisita realizada pela Liga Criativa, a Caixa foi encontrada em outro endereço. O acervo havia sido transferido para a sede do Boi Tira-Teima, no bairro das Rendeiras, distante do Alto do Moura, mas ainda dentro de uma rede viva de cultura popular. A mudança de lugar não apaga a passagem inicial. Pelo contrário: revela uma das questões mais importantes desta etapa de documentação do Ler pra Ser: acompanhar os caminhos que os livros fizeram depois da chegada do projeto.

Equipe do Ler pra Ser em Caruaru.
Equipe do Ler pra Ser em Caruaru.
Equipe em reunião no Ponto de Cultura Boi Tira-Teima.
Equipe em reunião no Ponto de Cultura Boi Tira-Teima.

Caruaru tinha 378.048 habitantes no Censo 2022, população estimada em 405.408 pessoas em 2025 e taxa de escolarização de 97,41% entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos, segundo o IBGE. O município também abriga o Alto do Moura, um dos territórios culturais mais simbólicos de Pernambuco, reconhecido pela força do artesanato em barro e pela herança de mestres como Vitalino. Na relação do Ministério da Cultura para o PNLD em Pernambuco, Caruaru aparece com biblioteca comunitária no Alto do Moura e bibliotecas públicas municipais como Aleixo Leite Filho e Álvaro Lins.

Esse deslocamento ajuda a entender por que a presença da Caixa de Histórias em Caruaru não deve ser lida apenas como permanência física em um único lugar. Ela também revela como os acervos comunitários dependem de redes, guardiões e espaços capazes de

assumir o cuidado com os livros ao longo do tempo. Na revisita, a Caixa de Histórias foi localizada no Ponto de Cultura Boi Tira-Teima, onde segue integrada a uma biblioteca comunitária e acessível à comunidade. O relatório de revisita aponta que a Caixa permanece em funcionamento, ainda que em espaço diferente daquele originalmente destinado à sua circulação, mantendo o acervo disponível e fortalecendo práticas de leitura no território.

A tabulação registra aproximadamente 48 livros, consulta local e manutenção frequente do mobiliário. Não há registro de empréstimos mensais, e as atividades de contação de histórias aparecem como ocasionais. Ainda assim, o acervo segue disponível e articulado ao cotidiano cultural do Boi Tira-Teima, espaço que já opera com a lógica da memória, da tradição e da transmissão de saberes.


Caixa de Histórias em Caruaru.
Caixa de Histórias em Caruaru.

Em Caruaru, a força da Caixa talvez esteja menos nos números de circulação e mais no encontro possível entre linguagens. A literatura pode dialogar com a cultura popular, com o cordel, com a oralidade, com a escrita criativa, com estudantes de Pedagogia voluntários, com grupos como Flor do Barro e Cabras de Lampião, citados na tabulação como articulações culturais.

As necessidades apontadas pelo território indicam caminhos muito coerentes com a cidade: oficina de cordel e escrita criativa, oficina de contação de histórias e oficina de práticas leitoras. É quase como se a Caixa pedisse para ser ativada a partir da própria vocação de Caruaru: contar, modelar, performar, rimar, transformar experiência em linguagem.

“Caruaru é uma cidade que já conta histórias pelo barro, pela feira, pelo boi, pelo cordel e pela cultura popular. A Caixa de Histórias chega para dialogar com essas linguagens, não para substituir nenhuma delas”, afirma Eliz Galvão.

O relatório também registra que a comunidade reconhece a importância da Caixa como ferramenta de acesso ao livro, fortalecimento cultural e aproximação com a literatura. As respostas qualitativas destacam a relevância das mediações culturais, o sentimento de pertencimento construído em torno da leitura e a necessidade de continuidade das ações desenvolvidas.


“Durante as oficinas, a ideia era aproximar cada participante da arte da palavra, dos saberes e das encantarias presentes nas narrativas. Fossem contos, crônicas, músicas ou poesias, cada experiência buscava despertar o encantamento pela leitura”, observa Guga.


Caruaru, portanto, mostra um desafio comum a muitos territórios culturais: o acervo está lá, o espaço é potente, a cidade tem repertório, mas a Caixa precisa de ativação contínua para se tornar mais visível, mais utilizada e mais integrada à rotina da comunidade.

A literatura, nesse caso, não chega para substituir as formas tradicionais de contar. Chega para conversar com elas. Para encontrar o cordel, a brincadeira, o boi, a cerâmica, o forró, o gesto, a roda. Para lembrar que livro também pode ser cultura popular quando encontra o povo, quando se deixa atravessar pelo território e quando passa a fazer parte das formas locais de imaginar e narrar o mundo.

Em Caruaru, a Caixa de Histórias permanece como acervo, mas também como convite. Um convite para que o livro entre na roda e conte junto.



Arte-educador Guga Bezerra em contação de histórias na primeira visita do projeto.
Arte-educador Guga Bezerra em contação de histórias na primeira visita do projeto.

Equipe Ler pra Ser no Ponto de Cultura do Boi Tira-Teima.
Equipe Ler pra Ser no Ponto de Cultura do Boi Tira-Teima.


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